Os ecos de Cazuza


Vinte anos depois da morte do artista sua poesia se mantém atual e constante, ainda ouvida e proclamada, ainda viva!

Comecei a gostar de Cazuza já na infância, quando prestava atenção num ou dois refrões aqui e acolá...Eram os anos 80, eu apenas começava a viver, mas ele já estava se despedindo desse planeta...

Morreu aos 32 anos, enquanto eu, aos 9, apenas questionava a professora do primário sobre a catequisação dos índios, na minha opinião bastante duvidosa. Afinal se os indíos, aqui já estavam, vivendo suas vidas com seus costumes e crenças...para quê, afinal, lhes enfiar goela abaixo algo que não queriam aprender...

Enfim...eu questionava uma matéria escolar, enquanto ele uivava sua indignação, constatações e amor numa poesia desmedida e num cantar único. A adolescência chegou para mim e muita mais fã fiquei de Cazuza, que traduziu sempre as minhas idéias...que me fez querer chegar sempre mais longe.

Admito que quando assisti o filme sobre a vida do cantor e poeta, constatei que um dos meus ídolos era na verdade um burguesinho mimado, sem limites e ainda perdido nesse mundo. Jamais ousaria falar com meus pais da forma como ele fazia – e olha que meus pais me chamavam de boca dura e me sentenciavam castigos quando eu resolvia enumerar meus motivos – muito menos vou admitir que meus filhos falem assim comigo – permito que argumentem, muito mais do que meus pais comigo fizeram, mas trato de deixar bem claro, que sem respeito não há conversa.

Mas aquele garoto mimado, não me devia explicações sobre isso, a mim ele deixou um conjunto de idéias e uma obra que falam por si. Não me interessa aonde foram parar seus limites ou se sequer chegaram a existir...

Acredito que existem almas indomáveis nesse mundo...e que bom seria, se a maioria delas conseguisse produzir metade do que Cazuza deixou...

Dizem, e em parte eu concordo, que o que mantém a chama da inspiração acesa de fato é o sofrimento, amores impossíveis, indignação, o não ser feliz...até porque só as pessoas alienadas são felizes...mas incapazes de criar!

E ele me deixou um acervo que completa meus sentimentos, que define meus pensamentos, que relembra meus ideais...A ele eu só posso agradecer, lamentar a ausência que me impede de assisti-lo ou de saber o que mais viria. Afinal o Brasil é um prato cheio de inspirações raivosas, pena não termos hoje mais poetas como Cazuza...Porque a ditadura (felizmente) acabou, mas sem ela nos sobraram calipsos, luans,  axés, funks e um abismo de boçalidade sem sentido e sem razão...

Infelizmente meus heróis também morreram, alguns de overdose, outros não, mas a grande maioria já se foi...e os meus inimigos...estes sim continuam no poder. E infelizmente eu não tenho o talento e a sensibilidade de Cazuza para lhes mandar alguns recados atuais...

os meus inimigos votando a favor das alterações do Código Florestal

Por isso deixo com vocês um vídeo de “Brasil”, onde o Cazuza canta com a Gal Costa, que deixa ainda mais ácida essa musica, que pelo visto, será sempre atemporal...

Obrigada Cazuza, por dizer por mim o que eu nunca conseguirei falar!

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"...eu tava aqui pensando...pensando
nos anos 2020 eu vou ter o quê?
72...73 anos...?
VAI SER TUDO IGUAL...TUDO, TUDO IGUAL"

Perto do Fogo
Cazuza/Rita Lee

Tudo...Cazuza! Tudo, tudo igual!

3 comentários:

  1. Menina, vi esses dias um um filme super famosos da vida de Cazuza, muiti bom, vale a pena ver!!! O cara era bom mesmo!!!!! Bjinhos!!!

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  2. Pois é Mari... O Cazuza foi, de longe, o maior poeta de minha geração. A influência da obra dele na minha vida foi gigantesca. Vestia-me igual a ele, enlouquecia meus pais por sustentar sua apologia em mandar às favas os "bons costumes". Durante toda a adolescência a imagem dele ocupava todas as paredes do meu quarto e as músicas dele o meu walkman sony!!! De lá pra cá, pouco vi que prestasse na música brasileira e, no tom de cazuza, não vi nada. De uma coisa discordo de ti: Cazuza não teve nada de burgues mimado. Ele foi sim, um jovem capaz de pertencer a uma casta social mais abastada e olhar pela janela, abri-la, e por ela gritar. Coisa que eu não vejo a maioria fazer.

    A zona sul do Rio de Janeiro tem uma das coisas mais fantásticas do mundo: as praias da zona sul reduzem todos os moradores da orla a uma sunga e um chinelo. Nas areias de copacabana, Ipanema, Leblon e São Conrado, todos são iguais sem distinção de origem, credo ou ideologia. Foi nesse meio que Cazuza foi criado. Em casa, os intelectuais frequentadores de seus pais, já há muito formadores de opinião. Cazuza teve assim, todos os elementos para ser burgues, mas resolveu ser "rebelde". Muito mais romântico e muito mais eficaz!

    Minha saudade é tão grande quanto a orfandade na qual fui lançada quando, chegando em casa, minha mãe abriu a porta com o rosto sério e disse: Sei que vc vai ficar triste, mas já era esperado: O Cazuza morreu." Eu ainda não sabia, mas ali, adolescente revoltadinha só fiquei pensando como seria a minha vida sem ele - (é mole?) - hoje, adulta ainda revoltadinha, mas já ciente de quem manda e quem obedece não importa o quanto grite, acho que ele foi em boa hora. Em tempo de não ver o quanto pioramos desde então...

    Ah... e outro ponto tb discordo: a ditadura não acabou - mudou de forma. A ditadura militar deu lugar à ditadura da ignorância. "O povo contra a elite". E um "salve" bem grande ao apedeuta e seus asseclas!

    Belíssima lembrança.... Lindo post.... Bjn...

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  3. Ele era demais, o melhor do Brasil.

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Ju e Thata

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