A diferença

Fui para São Paulo, na semana passada. Estava com meus filhos, esperando por uma amiga, em frente ao majestoso colégio Arquidiocesano, na estação de metrô Santa Cruz, quando uma galerinha de cadeirantes, jovens e com sorrisos estampados nos rostos, passou por nós, subiu a rampa de acesso que, teoricamente torna mais fácil acessar a estação, e tanan desceu a escada rolante, com relativa facilidade - e olha que não deve ser nada fácil descer uma escada rolante estando numa cadeira de rodas. Você já tentou? - Mas enfim, a rampinha mínima de acesso  estava lá e portanto nos obriga a acreditar que aquela estação dá acesso aos deficientes físicos (???). No mais, eles eram jovens, tinham sorrisos em seus rostos, conversavam relaxadamente, eram hábeis com suas cadeiras. Tive a impressão de que tinham mais motivos para comemorar do que para se aborrecer, pelo menos naqueles segundos, essa foi a minha impressão.

A cena, presenciada também por meu filho, com dois anos, que provavelmente, viu ou realmente reparou em alguém numa cadeira de rodas pela primeira vez, assistiu a tudo aquilo muito animado, como quem queria também participar da festa, exibindo também seu sorriso e falando repetidamente "Mãe...vc viu?A biciqueta!" Eu ri, entendi sua associação óbvia e quis explicar: "Não filho, não é uma bicicleta. É uma cadeira de rodas!", e ele, como exemplar fiel do sexo masculino que quer ter sempre razão, me olhou sério e decidido "Não, mãe. Não é cadeia de roda é biciqueta!".

E desta vez, sou eu quem tem quem concordar com o mini-exemplar do sexo oposto. Ele estava certo! É mesmo uma bicicleta, para todos aqueles que não foram inundados com o preconceito, com o que se espera de um ser-humano, com aquilo que devemos parecer, com aquilo que devemos ser. Para todos aqueles que ainda não foram teleguiados para pensar segundo tal corrente, ou segundo corrente nenhuma e simplesmnte resolveram não pensar.

Estava certo, porque, felizmente, ainda não aprendeu que falar homossexual não ofende, mas pronunciar viado é uma blasfêmia. Ou que ser afrodescendente é melhor que ser negro, mesmo que a grande maioria das pessoas vá utilizar de cor, moreninho ou outro termo qualquer numa tentativa de suavizar o significado de uma palavra que representa somente a cor da pele de outra pessoa, mas é tratada como se fosse um palavrão. É certo porque ele ainda não aprendeu que  ser cego, não andar, mancar, não falar, ou não ouvir já tiveram um monte de nomes diferentes e nenhum deles reduziu as dificuldades enfrentadas por essas pessoas, como também não as tornou melhores do que já são.

A grande maioria das pessoas fica lutando para criar mecanismos que as auxiliem a lidar com o alheio e o diferente de uma forma mais polida e correta...porque por dentro são incapazes de aceitar o que não é sua imagem e semelhança, porque por dentro só esperam dos outros que se enquadrem no perfil dos seus modelos sociais aceitáveis e esquecem que tanta diferença esconde apenas seres humanos, da mesma sapiência, das mesma mesquinharia, da mesma grandeza. SERES-HUMANOS.

Meu filho estava certo, para quem ainda não carrega o peso de pertencer a uma sociedade superficial, intolerante e turva; que ainda não aprendeu que as pessoas se olham e se rotulam, se reprovam e se odeiam: aquilo era mesmo, apenas um passeio de bicicleta! Ele não sabe das dificuldades, de todas as  provas, barreiras físicas e emocionais, também não sabe nada sobre o descaso e o preconceito. Ele sabe apenas, que aquelas pessoas podiam curtir suas rodinhas, andar mais rápido que a maioria das pessoas, se quisessem e com uma certa dose de aventura ainda por cima.

Meu filho viu pessoas...antes de ver deficientes físicos, diferentemente do que   fazemos nós: a grande maioria. E o meu trabalho é tratar de cuidar para que ele permaneça o maior tempo possível vendo o mundo dessa maneira, além claro, de seguir seu exemplo e descobrir pessoas antes de preconceitos.



Hardcore Sitting
Modalidade esportiva, onde cadeirantes fazem manobras em pistas de skate.

Se cada ser-humano, tido como padrão, pudesse experimentar esse esporte teríamos uma boa idéia de quem, de fato, são os deficientes físicos.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Belo post Mari.... E vc teve o privilégio de presenciar uma criança agindo como criança!!! Coisa rara hoje quando a maioria delas age como os adultos que as rodeiam ou os que vêem na tv. Já na infância do meu irmão, mais novo muitos anos,eu presenciei menininhas de 5 anos vestidas como prostitutas, menininhos da mesma idade falando palavrões em cada frase e, a cena mais tórrida de todas... adultos rindo e repetindo... " que bonitinho!"

    Que bom ver que ainda há crianças que são crianças e só. bjn...

    ResponderExcluir
  3. Que visão linda de uma criança. Eles tem mto mais a ensinar os adultos do que o contrário!!!
    Com certeza...
    Bjs

    ResponderExcluir
  4. Olá somos do HardCore sitting Brasil entre no site e de sua opinião, estamos no Twiter e no Facebbok.
    www.jumperequipamentos.com.br e www.hardcoresitting.com.br

    Valeu pelo comentario nos adoramos praticar esta modalidade e teremos nosso I enconro de HCS entre no site e venha participar..

    Pablo Moya

    ResponderExcluir

Obrigada pelo seu comentário e pela visita!

Se seu comentário for uma pergunta, pedimos que deixe um e-mail de contato, pois não conseguimos responder comentário anônimos!

Ju e Thata

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Sem firulas © Layout criado por: Algodão Doce Design
imagem-logo