Pra frente Brasil, Brasil!!! Salve a seleção!!!


Olá meninas... Espero que tenham tido uma semana produtiva.

Cá estou eu durante o jogo do Brasil escrevendo meu post para o Sem Firulas. E sabe como? Muito bem, obrigada!

As insuportáveis cornetas ao longe, a expectativa dos gritos histéricos dos vizinhos, uma multidão nas ruas usando o tradicional uniforme devidamente comprado no camelô – produto de extorsão, de sonegação de impostos, de contrabando, de trabalho escravo e de assassinato de caminhoneiros. Pra frente Brasil!!! Salve a seleção!!!

Eu juro que tento, mas não consigo não falar um pouco sobre a cultura de pão e circo da República das Bananas. Mesmo sabendo que falo ao vento, como gosto de ventanias, continuo falando.

Tenho acompanhado esses dias a excrescência proposta como reforma do Código Florestal Brasileiro e já não me estarreço mais. Pensei nas razões que teriam levado Aldo Rebelo a justificar tantas imbecilidades escritas com imbecilidades orais; no que levaria Carlos Minc a apoiar um projeto que prevê o aumento da ocupação de reservas florestais; no que a população fará na época das cheias; na devastação ainda maior das nossas florestas e, culmino no quanto terei que pagar de imposto para sustentar essa desgraça toda!

Sim, porque os “bolsa tudo” supostamente financiados pelo governo federal são pagos, na verdade por mim – pobre contribuinte que tenho o preservadíssimo direito de pagar para sustentar um país que se dá ao luxo de PARAR por causa de um jogo de futebol.

Noventa milhões em ação. Pra frente Brasil. Salve a seleção! Eram esses os versos que embalavam a seleção brasileira, durante a Copa de 1970, na emoção pueril de brasileiros que, em plena ditadura militar e os tão bem conhecidos “anos de chumbo” (1968 a 1974), não tinham tempo para pensar em sua realidade medonha pois tinham um consolo. O Brasil era tri-campeão mundial de futebol!!!


A “modinha” ou o “hino” como alguém acabará me apedrejando em algum momento, remete a um “Brasil grande e forte” que se moderniza, que vai para frente, com todos juntos, sem diferenças de classe, de raça ou de ideologia. Éramos todos irmãos, todos nos amávamos e estávamos vestindo a mesma camisa e em busca de um mesmo ideal. Unidade maior não pode haver!

Tratava-se de um resgate do orgulho brasileiro tão esfolado pelo golpe de estado, pela lucidez de poucos e pelo garboso controle da massa de manobra – a eterna grande caixa de ressonância – o povo.

Pra frente, Brasil, Brasil!!! Esses versos apagavam o passado sombrio e celebravam o presente ordeiro e o futuro de crescimento. Ordem e Progresso. É o que diz a bandeira tupiniquim.

A manipulação das massas pode até já ter sido projeto engenhoso outrora, mas não mais hoje. O uso do futebol sempre foi e sempre será uma poderosa arma de alienação porque o futebol é um meio pelo qual constituímos nossa identidade, nossa brasilidade.

Segundo o pesquisador Fernando Gonçalves Bittencourt, professor do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), através do futebol é possível acompanhar o processo pelo qual nos constituímos, durante o século XX, como nação de várias raças:

“A identidade está amparada em um sistema de práticas e símbolos que operamos em contextos específicos. Diversos modos de ser ajudam a formar um quadro instável do que é ser brasileiro. Com o carnaval, o samba, a alegria, a cachaça e futebol somos identificados e nos identificamos como brasileiros”, diz ele.

O professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luiz Carlos Ribeiro explica que a idéia do futebol como identidade nacional brasileira foi construída nos anos 1930/40, no mesmo momento em que foi construído o conceito da “mestiçagem”.

Segundo ele, um dos expoentes desse pensamento foi o sociólogo Gilberto Freyre que trabalhou com o conceito do mulato como a síntese do homem brasileiro. O jeito mulato era o responsável pelo sucesso brasileiro no futebol, um esporte democrático, que qualquer homem poderia jogar.

Gilberto Freyre, (1900—1987), sociólogo e antropólogo, foi um dos grandes nomes da história do Brasil. É criador do controverso conceito da "Democracia Racial Brasileira", expresso na sua obra mais conhecida: Casa Grande e Senzala (1933)


O projeto nacionalista de Getúlio Vargas – Presidente da República do Brasil entre 1930 e 1945 – apropriou-se da amálgama de “homem brasileiro” para si.

“Nesse percurso dois elementos vieram reforçar esse imaginário. Inicialmente a análise freyreana de Mario Rodrigues em “O negro no futebol brasileiro”, cuja primeira edição é de 1947. Associado ao discurso do próprio Freyre e das crônicas de Nelson Rodrigues (entre outros), O negro no futebol brasileiro foi alçado a paradigma explicador da nossa eficácia esportiva, sobretudo a partir da sua segunda edição (1962) e após a conquista de duas Copas do Mundo (1958 e 1962)”, afirma o autor.

As Copas do Mundo se transformam então, para os brasileiros, em um ritual em que se coloca em jogo a nossa brasilidade em relação ao mundo. Constituem um momento a cada quatro anos em que não permitimos que o Brasil seja alvejado por nada nem por ninguém; temos o orgulho patriótico à flor da pele e os mesmos brasileiros que falavam mal do Brasil na semana anterior, tornam-se soldados armados até os dentes contra quem ousa torcer para que a copa acabe logo - com ou sem taça.

Não é a toa que o Brasil inteiro pára por causa da Copa. Para Bittencourt, esse “parar” é muito significativo. É a explicitação de uma característica mítica:

“Os mitos são narrativas fora do tempo, encerram uma suspensão do cotidiano”, explica ele. “Tomada como um ritual, a Copa do Mundo realiza com êxito a tarefa cíclica de recontar, através de suas narrativas míticas e performances, a nossa história”, completa. Nas Copas nossa brasilidade pode ser atualizada e confirmada. O futebol é a união nacional.

Embora o projeto intelectual e político de associar a imagem do Brasil e a do homem brasileiro às vitórias da seleção de futebol nas Copas do Mundo seja anterior ao regime autoritário dos anos 60 e 70, a ditadura opera este movimento de forma mais orgânica e planejada, incluindo a disponibilização de recursos e a indicação de dirigentes de futebol.

Comandar uma Nação não é coisa para fracos. Fraco é o povo que se troca por uma garrafa de cerveja, um torresminho que já respirou um dia e um espetáculo que nos resgata da mediocridade de nossas vidas.

O pesquisador Gilson Pinto Gil, professor na Escola Superior de Ciências Sociais, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e estudioso do imaginário do futebol, explica que o estímulo político-institucional por parte do governo e de suas agências de propaganda tinha o objetivo de mostrar como se poderia chegar ao padrão de evolução e preparo dos países europeus:

“Para a Copa de 1970 surgem comissões técnicas de preparadores físicos, muitos saídos de escolas militares”, conta. A vitória restaurou a confiança e o ufanismo. “Instalou-se a idéia de um Brasil que ‘ninguém poderia segurar’, pois teríamos conseguido unir a arte ao único recurso dos europeus, a força, tornando-nos invencíveis”, descreve Gil.

O que o regime militar esperava com isso? Legitimação.

“Qualquer regime político precisa de reconhecimento e legitimação, mesmo os autoritários. Nesse caso, não basta o uso da violência. É preciso também eficácia e persuasão. Identificar o regime com a nação, fundir o governo com a pátria, exigia agregar símbolos que legitimassem a associação pretendida”, afirma Ribeiro. “É nesse contexto que é feita a ligação da imagem do regime à paixão esportiva e às vitórias do Brasil nos campos internacionais. O objetivo é transformar esses feitos vitoriosos do homem brasileiro na imagem do regime e o futebol – como qualquer atividade lúdico-cultural – tem a força da emoção, do envolvimento”, completa o pesquisador.

Exemplo claro disso vemos hoje no Planalto. À frente do Poder Executivo segue um homem sem estudo; sem escrúpulos; sem ética; que nada vê, nada ouve e nada sabe dentro de sua própria casa; mas que ama futebol; toma uma caninha; come um churrasquinho; gosta de uma musiquinha popularesca; fala errado – enfim – a cristalina identidade do povo brasileiro.

O esforço dos ideólogos do regime militar era, de forma subliminar, associar a imagem do Brasil à de um povo ordeiro, civilizado e vencedor. Ou seja, um povo pacífico, avesso a conflitos de ordem religiosa, racial ou mesmo social. Por isso a preocupação em disciplinar (leia-se “civilizar”) o atleta brasileiro que saía para representar o Brasil no estrangeiro.

“Mas é preciso ficar claro que não era um discurso isolado esse da modernização. Houve modernização tecnológica, como os investimentos em comunicação, transporte e mesmo em ciência e tecnologia. Afinal o regime ganhou legitimidade entre setores intelectuais e de classe média, graças ao crescimento econômico que a associação com o grande capital internacional possibilitou. Pelo menos enquanto essa aliança foi eficaz, entre os anos 1968 e 1975”, lembra Luiz Ribeiro, da UFPR.

Chamou-se também esse Período hitórico de “milagre brasileiro”, em que às alegrias da copa do Mundo de 1970, vistas pela primeira vez ao vivo em cores pelos aparelhos de TV (muitos deles compradas com subsídios do governo) se somavam inéditas taxas de crescimento e um regime de pleno emprego.

O jornalista Elio Gaspari, no livro “A ditadura escancarada”, conta que o Brasil vivia um ciclo de crescimento econômico nunca antes visto.

Em 1969, um ano depois da edição do Ato Institucional nº 5, ou AI-5, instrumento que deu ao regime e ao presidente Emílio Médici poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento de 9,5% (em termos de comparação: em 2009, o PIB brasileiro teve uma desaceleração de 0,2%).

Na época, o Brasil se tornou a décima economia do mundo. Segundo Elio Gaspari, a oposição se via diante de um governo que oferecia ditadura e progresso. “O século XX terminaria sem que o país passasse por semelhante período de prosperidade”, afirma ele.

Tão ou mais forte que a marca da prosperidade, os “anos de chumbo” ou do “milagre brasileiro” foram marcados pela repressão a todos os movimentos contrários ao governo militar. “Um regime anárquico nos quartéis e violento nas prisões”, de acordo com Elio Gaspari.

Assim, durante o governo do presidente-general Emílio Garrastazu Médici, enquanto o Brasil era hipnotizado pelas imagens da seleção no México, os meios de comunicação sofriam forte censura, presos políticos eram torturados, mortos, exilados ou simplesmente desapareciam.

Um filme que retrata bem esse cenário é “Pra frente Brasil” (1983), sob direção de Roberto Farias. Na história um pacato cidadão da classe média é confundido com um ativista político, sendo então preso e torturado por agentes federais. Na época a censura exigiu um prólogo dizendo que o filme era uma “obra de ficção”.

Estamos pois em meio a mais uma copa do mundo de futebol. Estamos novamente sob a égide de uma ditadura. Desta vez não mais a militar, mas a da pseudo revolta do proletariado contra as elites. A nossa bela “ditadura Robinhoodiana tupiniquim”.

Durante a copa acabamos com a esperança de manter de pé as nossas florestas; aumentamos os salários do Senado e de vários setores do serviço público que atendem a tudo, menos ao público; abrimos a porta para flexibilizarmos a norma para qualificar e permitir o nepotismo. No ano da copa, elegeremos Dilma para a Presidência da República, assecla com os mesmos adjetivos de seu líder. Quem é o responsável por tudo isso? Os políticos? NÃO!!! O povo que os colocou onde estão!!!

Mas nada disso importa. O que realmente interessa é saber qual será o novo sucesso que o “axé” vai nos empalamar garganta a dentro; quem vai aparecer na Caras da semana que vem; como anda o enredo da escola de samba para o próximo carnaval e, sobretudo, que a seleção de Dunga traga mais uma taça para furtarmos e derretermos!

Pra frente Brasil, Brasil!!! Salve a seleção!!!


6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Oi...
    Eu leio o blog a certo tempo, mas nunca comentei, mas hoje quando vi esse post senti a necessidade de comentar.
    Parabéns, o post é perfeito! Não tenho nenhuma critica a fazer, só quero agradecer! É bom saber que existem ainda pessoas que enxergam a realidade, que relembram a história...
    Me fez bem ler isso e ver que eu não sou a única.
    Não escrevo tão claramente quanto você, mas espero que tenha entendido o que eu quis dizer.
    Beijos

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  3. Jafa, como é gratificante ler os teus posts! Que espetacular este aqui, como aliás é do teu costume. Ser inteligente e escrever aquilo que os inteligentes tem dificuldade em expressar! Sensacional! Tua visão de mundo me faz me sentir menos infeliz por nossa condição de pessoas limitadas, acomodadas e repetidoras. Como vc disse no post, de "caixa de ressonância". Infelizmente costumo ver dois tipos de pessoas, as burras e as que fingem inteligência mas não passam de papagaios de pirata. Você me mostra com os teus posts que existe um terceiro tipo. As que são mesmo inteligentes e não precisam de recurso externo! Obrigada!

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  4. Jana...mais uma vez exemplar como sempre! Adorei suas referências. Como vc já mencionou: divergimos qto ao assunto futebol, mas continuamos amigas! Serei sempre defensora do direito as futilidades, sejam elas quais forem e eternamente contra a quem vive apenas delas. Podemos sim nos alienar por 90 minutos, paralisar um país por um mês, alegrar-nos com a idéia de que feriados acontecem numa segunda-feira pq o país do futebol vai jogar...mas esquecer de todo o resto é o grandioso problema. Culpa nossa, que permitimos que vossas excelências pintem e bordem graças a nossa alienação alimentada por nós mesmos. Mas o fato é de que eles pintam e bordam com ou sem copa e as pessoas contiuam alienadas quer sejamos campeões do mundo, quer não! Vivo uma vida esmurrando pontas de faca e normalmente sinto que só tenho perdido...esbravejo, leio, busco informações, busco reagir e estou tão longe desses homens donos de poder e do dinheiro que me calam sempre em cada eleição. Enfim...fica meu desabafo: estejamos livres para nos alienar eventualmente, sem jamais viver uma vida focados no próprio umbigo, desejando apenas pão e circo...

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  5. Redundante dizer, mas concordo contigo! O fato é q nos alienamos não apenas durante a copa do mundo, mas tb perante a vida, a economia, a política do nosso pais nos 3 anos de intervalo entre um torneio e outro. Ou seja, o brasileiro é um povo manipulado, ignorante e calejado de sofrimentos diversos. Eu mesmo estou, com um diploma nas mãos, desempregada ha 3 anos. Talvez a copa, nesse caso, sirva apenas como uma válvula de escape. 90 minutos em q só precisamos pensar nos gols e na classificação da seleção. 90 minutos sem se preocupar se vou ter o q comer amanha. É triste, mas é a realidade desse sofrido Brasil. Acordar desse pesadelo ( e essa é uma bandeira q eu levanto sempre) é somente por meio da educação. Ensinar o povo a pensar de verdade, questionar e ser agente transformador da própria vida e de quem a rodeia! Mas o q temos, ainda, é uma escola igualmente alienada, ultrapassada, q perpetua esse ciclo de ignorância e de não-ação/omissão do nosso povo... Talvez a saída definitiva não esteja mais na força conquistada do voto direto, haja visto q, mesmo q votemos todos em candidatos diferentes dos mesmo velhos macacos da nossa república, é necessário q se façam alianças pra governar, e isso acaba em um ciclo vicioso, q coloca o poder sempre nas mãos dos mesmos... Talvez a idéia q resolveria de vez essa "pinimba" seja jogar uma bomba no meio do congresso e começar do zero... heheheheheh

    Bjos e parabens pelo excelente post!

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  6. Tata: Muito obrigada, querida! Fico imensamente feliz que entre as maravilhas de posts produzidos semanalmente pelas meninas vc tenha escolhido um meu para se manifestar! Grata, de coração! E manifeste-se sempre! O mundo é feito de idéias e as tuas são muito necessárias ao nosso crescimento! Bjn...

    Bianca: Muito obrigada pelos elogios, querida! Vc sempre é mais benevolente do que eu mereço! Bjn...

    Mar: Absolutamente certa! As futilidades seriam a melhor válvula de escape se nnao tomadas como parâmetro mor na vida de muitos! E vc, especificamente, tem direito absoluto em ser o tão fútil quanto quiser, pois a tua obra em prol da sociedade assim o permite! Uma de minhas grandes conquistas recentes - vc. Obrigada! Bjn...

    Jessy: Infelizmente educar não é interesse prioritário em países onde a ditadura da ignorância se traveste de democracia. Onde a "voz do povo" reflete claramente o benefício pessoal em detrimento do social. No Brasil, infelizmente criou-se a cultura do "diploma para todos" - como se esse pedaço de papel (dos mais caros, diga-se de passagem) pudesse resolver os problemas de cultura, emprego e sustentabilidade social. Uma tristeza que a maioria ainda creia nisso! Eu espero (e desejo) que vc se coloque o quanto antes no mercado. E nunca se paute por esse pedaço de papel, pois ele certamente não mede o teu valor! Bjn...

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Ju e Thata

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