São Paulo - "...E quem vende outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade"

Olá meninas! Hoje eu sinceramente estava com os dedos coçando para escrever sobre esse desmedido vazamento de petróleo, que sinceramente, não me deixa em paz. O que a gente entende por evolução e progresso, quando não dá certo, os animais entendem por morte e desespero. Mas enfim, essa postagem vai ficar para o Evolução Sustentável e hoje por aqui eu falarei sobre minha relação de amor e ódio com São Paulo.

E fazendo um paralelo com o desastre do Golfo e a segunda maior metrópole do mundo, acredito que ter nascido e crescido em São Paulo, tenha sido determinante para a minha postura em relação a vida, ao mundo, ao tempo.

Fiquei crítica, muitas e tantas vezes chata, buscando brechas num sistema com o qual eu discordo, procurando agulhas num palheiro podre. E São Paulo tem tudo a ver com isso. Sua poesia concreta me mostrou sempre, primeiramente, seu lado sombrio, triste e sofrido, para as pessoas e para os animais. Via mais o mal do que o bem. E foi sempre assim enquanto eu morei por lá.

Quando criança, alienada as questões políticas, mas já preocupada com os animais de rua, minha personalidade começou a se formar. E por isso eu prestava mais atenção nos animais abandonados do que nas construções belas, antigas ou modernas. E enxergava mais o sofrimento dos cavalos puxando suas carroças abarrotadas, feridos e magros, do que me importava com os carros bonitos ou com quem os dirigia.

E assim fui crescendo, contrariando todo um modelo de cidade concretada, estudei numa escola cheia de verde, com pitangueira, bambuzal e morros que usávamos como tobagã e onde, certamente, aprendi que ser era mais importante que ter. E que, provavelmente, me instigou a querer buscar mais verde naquela selva de pedra, sempre que possível. E foi assim, quando eu cabulava aulas, no ensino médio para ficar no Ibirapuera o dia inteiro, às vezes sozinha.

Solidão nunca me amedrontou. Sempre gostei de ficar sozinha. Adorava minhas tardes no Ibirapuera e até cinema na Paulista, apenas na minha companhia...e talvez por esse motivo, São Paulo para mim não era um ninho acolhedor. Porque se solidão não me dá medo, multidões me amedrontam e muito. Aquele enlatado de fim de tarde no metrô, me desesperava. Se era calor, então...eu queria voar e fugir para qualquer praia, pra sentir o cheiro da maresia, para ver outra paisagem, que não o ser-humano, para ouvir o silêncio e não precisar correr...

Porque São Paulo corre, mas eu apenas caminhava...e não combinava com o lugar. Lembro-me das cenas que ajudavam a potencializar minhas revoltas: no centro da cidade, do meu lado direito o espetacular teatro municipal e todo glamour de uma sociedade que você jamais vai encontrar dentro do metrô. Homens com ternos finos, senhoras com casaco de pele...ao meu lado direito, mesmo com o frio enlouquecedor meninos, tão novos, tão independentes, de roupas rasgadas e um saco plástico cheio de cola numa das mãos. E no meio disso, lá estava eu...detestando aquele cenário, tendo horror da minha cidade...

A verdade é que São Paulo sempre me fez sofrer, suas tragédias, seus desníveis, tantas construções, tantos edifícios e as árvores ficando raras e os pássaros indo embora e a vida sendo consumida pelo o que não é verdade, pelo o que não tem valor...Sempre me senti um peixe fora d' água, uma alma que não ornava com a cidade, alheia a metrópole que me criou...

E essa sensação as vezes se esvaia...porque São Paulo tem seu lado podre, tem seu lado triste...mas tem um número infinito de opções...e você pode ir se encontrando por elas, buscando e achando o que quer. Se shoppings definitivamente nunca me fizeram feliz, shows ao ar livre sim, feiras de artesanato, praças, butecos, a noite de São Paulo, o que não é obvio, o que não está previsto, o que é alternativo. Tudo acontece por lá. São Paulo é o mundo inteiro num só lugar! É um clichê? É! E também a mais pura verdade...

São Paulo é um paraíso para quem tem sede de viver, para quem quer experimentar o mundo, para quem quer descobrir tudo. E você descobre. São Paulo te abraça proporcionando cultura para todos os gostos e bolsos. A história de São Paulo inebria...você vai se perdendo por ela quando começa a descobrir a cidade.

E eu, neta do meu avô, que fui, avô paulistano, inquieto, desbravador que conhecia São Paulo com uma palma da mão, que não negava carona, que gostava do mundo do jeito que o mundo é...Vi, senti e vivi São Paulo, muito pelos olhos dele, de quem tem tantas histórias para contar, de quem viveu oito décadas, cada uma única e ímpar, nessa cidade gigantesca. Gigante de vida, gigante de morte. Gigante...

Certamente no fim da adolescência e começo da idade adulta foi quando eu mais aproveitei a cidade. O passaporte para o mundo que os pais finalmente dão, me permitia ir e vir...e eu muito fui e muito vim...me perdi, me encontrei, aproveitei o que pude e até o que não podia se aproveitar. Admirava a cidade tão proporcionalmente eu queria dali me afastar...

E foi assim...eu sai de lá. Vim para o marasmo da cidade de praia, para a brisa com cheiro de mar, para o sossego...e fui feliz o quanto deu também...mas nunca abandonei a cidade que me criou. Minha vida ficou por lá também, minha família, meus amigos, meus espelhos, as ruas que contam a minha história. As escolas e os teatros em que estudei, o orfanato onde voluntariei, as baladas onde me embebedei, todos os caminhos que percorri e que me ajudaram a chegar nessa Mariana de hoje, aqui...

Sempre retornei. Retornarei sempre que me for possível. E no começo, a cidade ainda me revoltava, achava o metrô uma batalha de guerra, aquela correria insana e mau-educada, a superpopulação desesperada e o trânsito...bom, sobre o trânsito eu nem preciso comentar.

Mas hoje...eu volto para São Paulo e tenho a vontade de me curvar! Ainda do lado dos ambientalistas que estou, contra grilheiros na Serra da Cantareira que querem condomínios luxuosos no lugar de reservas, contra também, as invasões do que sobrou do verde. Contra os cavalos nas carroças e os cachorros e gatos mau tratados, atropelados, abandonados, contra o lixo abarrotando os bueiros e contra a recilagem ser tão mínima na cidade...Contra também o descaso em hospitais públicos e a deficiência na educação. Contra a covardia! Covardia essa que acontece e acontecerá em todo e qualquer lugar, isso não é privilégio ou exclusividade de Sampa...

Mas a favor...de todas as árvores que restaram, pequenas ou centenárias e das que eu ainda posso plantar por lá. A favor da cultura e das oportunidades que só São Paulo sabe oferecer. A favor da educação das pessoas em ainda tantos lugares, do “Bem-vindo” estampado em rostos variados que determinam a heterogência da cidade. A favor da vida que ainda pode ser gerada, dos animais que podem ser salvos, da reciclgem que pode aumentar. A favor das pessoas interessantes, tantas, que estão por lá, esperando para conhecer a mim também. A favor dos comércios 24 horas, das passeatas organizadas e manifestações com bons motivos. A favor do metrô, do trem, que me levam longe e me permitem mais. A favor da Rita Lee, a sua mais completa tradução.

A favor de São Paulo, que hoje eu admiro ainda mais, uma São Paulo, que me faz encher a boca pra dizer que sou paulistana, uma São Paulo que me faz ter urgência de querer voltar para lá. Uma São Paulo que eu também pretendo transformar e principalmente descobrir cada vez mais.






8 comentários:

  1. Nossa, amei seu texto!
    Eu amo São Paulo e meio que aprendi a viver com os contrastes, mas torço para que as coisas melhorem, sou uma eterna otimista.
    bjs
    Lilith

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  2. Belo texto Mari. Já muito pensei tb sobre a minha relação com sampa e isso até já virou texto, mas ainda não sei expressar completamente em palavras o que se passa entre mim e a cidade.

    Tenho enorme carinho por coisas de sampa. Sinto-me orgulhosa em dizer que nasci naquelas terras, mas não consigo me imaginar voltando a viver na cidade sem definhar - sem entristecer - sem ficar branca de novo, por dentro e por fora!

    Gosto da minha cor carioca. Do meu jeito de ver a vida, muitas vezes carioca tb. Gosto de ter a praia a 700 m da minha casa, de enfiar o pé na areia fofa, fina e branca como só tem aqui. Sei lá... gosto de pouca roupa e já tenho pouca educação tb!

    Estranhamente continuo tendo sampa como referência de muitas coisas boas ainda que com todos os seus problemas e ainda que já não me sinta mais em casa quando estou lá.

    Chego já querendo sair, mas alegro-me por estar. Talvez eu realmente não consiga nunca explicar essa sensação. Essa discrepância. Mas tb não preciso, pois sampa não pede explicações a ninguém e tampouco se presta a dá-las.

    Acho que essa liberdade sustenta e continuará sustentando o meu orgulho de ter nascido em sampa e a minha alegria por ter encontrado a hora exata de deixá-la até para saber valorizar seus pormenores... bjn...

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  3. Lilith - Acho q é assim que deve ser! Temos mesmo que enxergar o copo sempre mais cheio, mesmo. Se não a gente perde a força para continuar lutando...Obrigada pelo elogio!

    Jana - Nem me fale, estou numa, daquelas fases da vida, crucial, determinante...ou vai ou racha...e fico pesando prós e contras. Tenho medo de ficar branca, por dentro e por fora, também, voltando a matrópole, ao mesmo tempo que quero viver tudo, que estou com gana, que não mais suporto o marasmo...Enfim..a gente enxerga o mundo de acordo com os sentimentos que possue! E os sentimentos são mutantes e variam em cada momento!
    Durante muito tempo tive a certeza de que havia feito uma boa escolha e acreditei que nunca mais voltaria para lá. Mas a gente é livre para mudar e mais uma vez tô nessa onda, talvez eu não envelheça na cidade. Tenho tb planos para Floripa e o nordeste...mas por hora, acho que é pra lá que eu vou...

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  4. Lindo, sincero e consciente teu depoimento!beijo,tudo de bom,chica

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  5. Fofinha...seguinte
    quando começei a ler, fiquei triste...È tão ruim ver os sonhos das pessoas se desmoronando né..
    è tão triste ver tudo o que as pessoas conquistaram ir por agua a baixo, por coisas fúteis...
    Eu te digo isso, porque até os meus 7 anos presenciei meu pais brigarem muito... Meu pai batia DEMAIS em mim e na minha mãe... E o que ela fez???????? Fugiu e largou TUDO (casa, móveis, cachorro, TUDO)....Abandonou....
    E é triste........... Muito... Eu espero que seus vizinhos se resolvam, se Deus quiser e vc reze por eles e cuide de seus bichinhos e do Crsipim, tadinho.....
    Um beijo

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  6. Oi Mari! Td bem?

    Belo texto!!!
    Amei!!
    Pra mim Sampa sempre vai ser sempre minha terra natal, além de ser tb o lugar das oportunidades, das baladas, das noitadas, das lembranças (ah! qtas lembranças!!!), etc...
    Mas pra morar já elegi "o lugar" qdo voltar daqui da Suiça!!! Sul da Bahia na cabeça como disse anteriormente.
    Bjs

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  7. Lu - só sendo paulistano pra saber dessa nossa relação com a cidade, não é? Por mais que estejamos em qualquer outro lugar do planeta o que foi vivido na terra natal é inesquecível e determina, muito, o tipo de ser-humano q escolhemos ser...Tenha uma vida abençoada na BA, quando chegar a hora!

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  8. JANA: Oi querida... ˜ão tinha visto pq teu comentário acabou no post da Mari... Obrigada pelo comentário. Sinto muito por essa parte tão triste da tua história! Mas o bom de sermos os donos do nosso livro em branco é que sempre temos a oportunidade de escrever o que bem quisermos nele, não é? Um beijo...

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Ju e Thata

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