Qual é o sentido da vida?

Hoje o tom das postagem, mais uma vez, beira o desabafo...

Certo dia no twitter houve uma discussão, leve, nada de ofensas e desespero, acerca dos já tão comentados testes em animais, que se estendia também ao consumo de carne e bla, bla, bla...E no meio do "alvoroço" li a seguinte frase, escrita por uma bióloga " Testar a cura do câncer em células tronco não rola, né?" E eu só pude responder: "E o que rola, então? Já que os testes em animais, também não trouxeram a cura para a minha vó, que morreu de câncer!" Esteja a ciência como está, as pessoas morrem e é assim que deve ser. Essa não é a nossa grande e única certeza na vida? E porque o homem ainda não se acostumou, não quer aceitar e ainda pretende imortalizar uma espécie que não vive em harmonia com o restante do planeta?

E para que ninguém aqui ache que sou uma insensível, apática a morte de pessoas próximas (ou não). Eu vou falar um pouco da minha avó. E do meu avô. Os maiores responsáveis pelas melhores coisas que carrego no meu coração.

Quando eu tinha 6 anos os meus pais se separaram...pouco tempo depois eu e minha irmã nos mudamos de mala e cuia para o apartamento dos meus avós, que já frequentavámos quase que cotidianamente. Minha avó era uma avó moderna, não se encaixava no perfil da maioria das avós das minhas amigas. Afinal, quantas mulheres você conhece que trabalhavam na década de 50? Minha vó trabalhava...muito antes das mulheres começarem sua revolução, minha vó já era independente financeiramente. Ela era altiva, generosa, vaidosa. Não levava desaforo para casa. Também adorava os animais, não era de fazer fofoca e nunca fez a linha dona de casa prendada. Ela gostava era de passear, torrar sua aposentadoria nos shoppings. Usava calça jeans e bota combinando com a bolsa...e foi assim até seus 80 anos...

Minha vó tinha o dom supremo de me acalmar...Lembro-me, especificamente, de uma noite muito chuvosa e eu em desespero pelos animais de rua, chorava baixinho e então lá veio ela: "Filha, não fique assim, os animais são muito espertos, sempre encontram um bom lugarzinho para se esconder..." Não sei se era seu jeito de falar, só sei que essa imagem, de cachorrinhos e gatos encontrando esconderijos perfeitos nos dias de chuva, me acompanhou por anos e me trouxe muito conforto.

Enquanto ela cozinhava me contava histórias que eu acompanhava quase hipnoticamente. Outras vezes era eu, com meu pianinho barulhento, que fazia músicas para ela. E ao invés de se irritar ou me mandar para outro cômodo, ela ainda me elogiava, dizendo que eram as músicas mais lindas que ja tinha ouvido.

Ela era extremamente protetora e me mimou muito. Não nego...e como cresci feliz, por isso! Quando já era adolescente ela implicava com o sol. Chegava a dizer que eu ficava horrível " brilhante" daquele jeito e não via necessidade para que eu me bronzeasse. Também era assim com as saias indianas: "Filha você é tão linda, jovem, para que usar essas roupas de velha?". Essa era a minha avó.

Assim como meu avô. Certamente o melhor homem que conheci: bem-humorado, simpático, disponível, educado, solidário. Este era meu avô. Sempre bem! Sempre animado! Cheio de histórias para contar, cheio de vida que sempre nos dizia "Eu não tenho paciência para conversa de velho. Eles só sabem falar de doença". E ele não era assim...ele falava de vida! Meu avô ficou orfão aos 7 anos e se virou sozinho numa São Paulo da década de 30. Cresceu, trabalhou, casou, teve filha, alcançou o sonho da casa própria...mas não foi tudo isso que o tornou especial. Especial ele era porque apesar de ter tido um passado triste e pesado, tantas vezes sem amor, ele nunca se tornou amargo. Muito pelo contrário, meu avô era a pessoa mais carinhosa do planeta e se a vida não foi muito legal com ele, no início, ele retribuiu com amor, com alegria e generosidade.

Meu avô era um livro de história . Eu amava conversar com ele e descobrir o mundo. História, geografia, política e futebol...passava horas fazendo perguntas e recebendo respostas maravilhosas. Quando eu tinha uns 12 anos fui com ele a um médico na Avenida Paulista. Numa viagem de uns 40 minutos São Paulo ficou mais próxima de mim, não parecia ser mais tão grande. Descobri sobre o edifício Joelma e tudo o que aconteceu naquele dia do incêndio, sobre o Convento construído com barro da Avenida Tiradentes, sobre o MASP, sobre cada pedacinho daquela cidade que ele cohecia tão bem. Qualquer caminho de São Paulo, meu avô tinha percorrido, conhecia um atalho, tinha uma história para contar...

Me levou para cada canto de São Paulo que eu precisei ir. Me levou aos anos 60 e aos anos 30. Me fez também amar o Corinthians. Meu avô me ensinou humildade, me ensinou que é legal ajudar e servir. Me ensinou que a gente, de fato, é mais feliz quando sorri. E se minha avó era bastante atípica entre as outras avós, certamente meu avô também era assim. Preferia sempre as companhias femininas, brincava que dentro de casa até as cachorras eram fêmeas. E devo admitir que era quase uma celebridade no meu bairro. Todo mundo o conhecia.

Minha primeira menstruação veio exatamente num dia de aniversário dele. E advinhem quem foi que me comprou o pacote de modes? Meu avô!Sim! Ele trazia "surpresinhas" diárias para minha irmã e para mim, maria-mole, danone, sorvete de milho-verde, chocolate...cada dia tinha alguma coisinha simples e extremamente eficiente. Algumas vezes o vi preocupado, poucas vezes triste. Irritado, apenas quando batia o dedo do pé em algum móvel da sala, quando em seguida lançava sempre a mesma frase "Eu vou arredondar a quina desse móvel", mas mau-humorado eu nunca vi! Nunca!

Enfim...essa é uma parte mínima da história que vivi com eles, mas diferentemente do que parece o fim, esse é o ínicio do paralelo que vou traçar para justificar o nome desse texto. Em julho de 2002 minha avó começou a ficar doente...e depois de alguns diagnósticos errados foi constato câncer de pulmão (numa pessoa que nunca fumou, nem cometeu excessos, mas a vida é asssim, sem nenhuma explicação definitiva mesmo) e a cada dia ela começou a piorar, com meu avô ao seu lado, incansável, a cada minuto.

Começaram as quimioterapias, o cabelo começou a cair, ela emagreceu assustadoramente...e já nas vésperas de sua morte eu nem mais a recohecia. Minha avó da vida toda, não era aquela pessoa que estava deitada naquela cama agora, distante, apática, triste e confusa...E sinceramente, se soubessemos, de que de nada adiantaria tanta quimioterapia, eu teria preferido que ela apenas ficasse em casa. Sem enfrentar hospitais, médicos e enfermeiros, sem sentir nauseas e dores injustificáveis. Sem ficar careca e morrer com fios brancos que eu nunca havia visto em seus cabelos. Uma das mulheres mais vaidosas e arrumadas que conheci, morreu sem cabelo e magérrima e talvez a ciência tenha apenas acrescentado mais sofrimento aos seus últimos dias vida do que soluções eficientes que minimizassem sua dor.

Quatro anos depois foi a vez do meu avô adoecer...e os diagnósticos confusos e variados o forçavam a tomar cerca de 15 comprimidos diários, aliados a uma dieta chata que lhe proibia tudo o que ele gostava. E por um ano ele permaneceu com essa vida, não podia mais dirigir, algo que tanto sempre amou fazer. E a pessoa mais animada e cheia de energia que eu conheci ficou ranzinza, sem vontade de viver e sem esperança. Até chegar a hora de definitivamente partir...

Passei minha infância sentindo um pânico velado, com medo que meus avós morressem... Minha vó morreu seis meses antes de eu engravidar pela primeira vez e meu avô morreu dois meses depois de conhecer o seu primeiro bisneto. O primeiro homem da família...mas não pode o aproveitar. E talvez essas sejam as minhas maiores lamentações, eles não poderem estar aqui para curtir comigo os meus filhos...

E aonde eu quero chegar com tudo isso?Na ciência, nessa infinidade de opções que hoje temos contra doenças e a favor da juventude eterna. Nenhuma delas salvaram  meus avôs...e como mencionei, sinceramente trocaria o ano da quimioterapia da minha vó, mesmo que isso abreviasse sua vida, mas para que ela tivesse morrido, simplesmente mais parecida com o que fora a vida inteira. Assim como com o meu avô...que ficou irreconhecível, tomando todos aqueles remédios e lotado de privações sem poder ser e fazer o que era e mais gostava só para ficar vivo. Também suportaria o fato de ter com ele um ano a menos, mas com os outros mais cheios de vida...

Tanta tecnologia e ciência ainda não suprem os valores reais, as escolhas verdadeiras. Estender a vida, não significa dar um vida com qualidade, com felicidade...e vida longa e vazia...pode ser boa para os médicos, para os hospitais, para quem lucra com a dor alheia...mas para que vive as limitações e o martírio, não sei se vale a pena.

É por isso que fica aqui meu desabafo, nenhum teste em animal, serviu para dar mais qualidade de vida as duas pessoas que mais amei nessa vida. Perdi quem me criou e amou incondicionalmente. Não mais os verei nessa vida...ficaram as recordações, minha admiração infinita e saudades eternas...apenas isso...

E fui feliz com eles...não devido a ciência...mas sim ao tempo que tivemos a sorte e a chance de dividir...Aliás dizia meu avô que quem havia curado uma depressão que minha avó teve foi justamente o meu nascimento. E essa era uma história que eu não cansava de ouvir.

Num mundo onde os pais trabalham pelo menos oito horas por dia e levam mais uma ou duas horas para ir e voltar...foi uma dádiva ter a companhia integral dos meus avós. Ter brincado de lojinha com a minha vó, ter meu avô me lendo gibis e me treinando como goleira.

E eu não consigo não me perguntar: adianta alongarmos a vida, buscarmos a imortalidade e ainda assim preenchermos tão mal o tempo que nos é oferecido? Os filhos se não ficam com avós, ficam com terceiros, nas escolas, no vizinho...tudo porque precisamos ocupar nosso tempo trabalhando para ter dinheiro, para comprar e inverter o ciclo básico da vida...Hoje somos porque temos, sem saber o que seríamos se nada tivéssemos e nesse ritmo vamos enfraquecendo as relações mais supremas e verdadeiras,
deixando correr um tempo que depois não conseguimos recuperar com as inovações da ciência.
E não quero com isso levantar a bandeira do “abandonem seus empregos”, mas já que chegamos até aqui e buscamos tanta revolução em cada setor da humanidade. Deveríamos sim, rever as escalas de trabalho, a jornada, quantas horas do dia leiloamos para o trânsito, as obrigações e tarefas enfadonhas e inúteis...e quantas horas nos sobram para de fato ser feliz...

Temos que reaviliar tudo, sim! A vida vale mais que o sistema capitalista ao qual nos enclausuramos e por mais clichê que isso possa parecer...tem seu fundo de verdade, tem a sua parcela de vida esmagada em nome do dinheiro...

...e isso se reflete nas notícias amargas da televisão. A procuradora, trabalhou sua vida inteira, tem dinheiro e  conquistou status, apartamento em área nobre...mas é incapaz de dar amor! E para que outras crianças não sejam sentenciadas por esse ritmo de vida hipócrita e ilusório no qual nos encaixamos...é hora de mudar!

Talvez eu seja mesmo radical, extremista, xiita, também deixei de pautar vários ítens que caberiam nessa dissertação. Mas não consigo acordar todos os dias, levar meu filho para escola e ver as outras crianças, que chegam na "perua" com os olhos cansados, cheios de sono, que precisam sair de casa as vezes às 6:30 e retornar depois das 18 e 19 horas e perdem tudo o que tive o privilégio de viver junto com a minha família...só porque seus pais precisam trabalhar. Só porque essa é a maior necessidade humana, quando para mim, a maior necessidade humana deveria ser a de dar e receber amor...

Enfim...fica outra vez meu desabafo...

8 comentários:

  1. Mariana...
    este foi o texto mais verdadeiro que li.E stou em lagrimas.
    Sabias palavras as suas.
    Obrigada por dividir.
    Beijos,
    Fran.

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  2. Muito bom o seu texto.
    Parabéns pelo incentivo.
    Beijos, boa semana :)

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  3. A ciencia tb é um negócio.. Dinheiro. Plim Plim Plim ... Se calhar o interesse é mais monetário do que a longevidade...

    E nós simples mortais queremos é as pessoas que amamos o máximo de tempo possível connosco :)

    Morrer de cancro pode ser uma longa caminhada de dor. Há casos de sucesso. Mas tb há casos em que as pessoas apodrecem na cama antes de morrer (como o avô do meu marido)... estas mereciam morrer mao mais dignidade.

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  4. Esse final acabou comigo...sofro todo dia qdo saio para ir trabalhar...

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  5. Concordo completamente com vc, tbm perdi meus avós maternos de câncer em seis meses de diferença (2007/2008), minha avó morreu exatamente dois meses antes de eu casar, e acompanhar o sofrimento deles em cima de uma cama foi terrível! Concordo com vc, q tantos remédios só trouxeram mais dor, apesar deles não terem feito quimio ou radio, pq em 1 semana de internação eles faleceram,mas ficaram uns 2 meses em kza em cima da cama sofrendo sem saber d q. Gostaria muito de ter aproveitado os últimos dias deles rindo e brincando ao invés de chorando, contando as horas d q tudo poderia acontecer. Nunca me esquecerei deles, mas este foi um momento terrível em minha vida! Vamos viver intensamente com quem amamos e deixar de lado as bobeiras da vida, afinal não sabemos qdo partiremos não é mesmo?!
    Bjs Dre!

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  6. Fran - quando fiz essa postagem achei que não seria muito bem compreendida e quando dei de cara com o seu comentário, só pude ficar mega feliz, pq além de me entender, vc compartilha comigo o mesmo ponto de vista!!!Obrigada pelos elogios...e conte comigo, sempre, para dividir quase tudo o que se passa nessa minha cabeça maluca...beijos

    Especialmente Gaspas - fico muito feliz de ver sempre seus comentários nos meus posts. Vc está certíssima. A grande maioria das invenções humanas, benéficas ou incrivelmente insanas, visaram e visam sempre os $$$$. E a massa que ainda possue um coração a pulsar fica a mercê dessas criações. Também acredito que muitas invenções na saúde trazem e trarão mais dignidade e menos sofrimento, mas quando são aplicadas, principalmente, por profissionais humanos e dedicados. Mas, infelizmente, o que mais vemos são profissionais que apesar de estudarem tanto não carregam consigo bons valores e bondade no coração.

    Érica - Eu sei, eu sei...e isso me deixa mal tb. No momento estou sem trabalhar, párei minha vida para cuidar dos meus filhos. Mas sei que a grande maioria não pode fazer isso. Ainda mais quando passou tanto tempo se dedicando a sua carreira que conseguiu consolidar. Se me permitir um conselho, acho que sempre tem que pensar que está fazendo o seu melhor...e quando estiver com sua prole dê seu máximo e aproveite cada segundo da companhia das pessoas que mais ama...que eles certamente vão sentir todo o seu amor!!!beijos!!

    Dre - vc, bem como eu, sabe extamente o que senti ( e sinto)! Lamento por suas perdas, tanto quanto pelas minhas. Avós são o maior presente que podem ganhar as crianças nesse mundo! E vc falou tudo no final. Quanto tempo perdemos, quantas barreiras erguemos por sentimentos pequenos como orgulho e melindre que insistimos em cultivar. A gente tem é que ser grato a quem conosco está nessa vida e demosntrar cotidianamente o amor que por eles sentimos, largando as picuinhas de lado. Porque no meio dessa história toda, minha única certeza é de que meus avós morreram tendo a absoluta certeza de que os amei absurdamente e isso eu fiz questão de demonstrar todos os dias da nossas vidas. beijos!

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  7. Adoro o blog, adoro seus textos... sou contra os testes de cosmeticos em animais (porque, sim, existem outras formas de fazer isso), mas pra que os antibióticos, ou qualquer outro medicamento, que você dá para os seus filhos sejam seguros, primeiro eles tem que passar por teste em animais. Você daria algo para eles tomarem sem ter pelo menos 99% de certeza de que o produto É seguro pra eles? Não to falando de medicamentos de cuidados paliativos, to falando de qq medicamento, daquele que você toma para dor de cabeça... Onde você propõe iniciar o teste desses medicamento? Nas populações mais pobres que aceitariam se sujeitar a isso em troca de dinehiro para alimentar seus filhos? Eu, sinceramente, como farmacêutica, acho isso MUITO, mas MUITO mais cruel e antiético do que usar ratinhos de laboratorio que são devidamente criados, alimentados e tratados SEM CRUELDADE, porque todos esses animais são tratados com o devido respeito, para este fim.

    Beijos

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  8. Agradeço pelas suas palavras Mariana, e q bom saber q vivemos e amamos nossos avós, nem todo mundo dá valor a família hj em dia!
    Vivamos com o sentimento d dever cumprido, por termos dado tudo o q podiamos a essas pessoas tão especiais e q nossos filhos possam desfrutar desse sentimento tão lindo q é amar nossos familiares.
    Bjs Dre!

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Ju e Thata

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