Bem vindo a Praia Grande!

Acho que a maioria de vocês não sabe, mas moro na Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Para quem não é do estado talvez essa praia possa ser até desconhecida, mas para quem mora por aqui, acho improvável nunca ter ouvido falar da minha ilustre cidade.

A Praia Grande se localiza a 92 km da grande São Paulo, o que a torna, sem nenhuma dúvida, a praia de mais fácil acesso a paulistanos de todos os lugares. Em épocas de temporada o número de habitantes que é de aproximadamente 250 mil, chega a 1 e até 2 milhões de pessoas. Todas dividindo o mesmo espaço,  uma orla que conta com 26 km ininterruptos.

A Praia Grande é conhecida por ser o antro dos farofeiros, de funkeiros burgueses que com seus carros equipados obrigam o restante da cidade a ouvir com eles suas músicas de gosto duvidoso, é conhecida também por transformar sua praia num comércio tipicamente a la 25 de março, oferecendo junto com os ítens de varejo comidas de todos os tipos...que geram reíduos, também de todos os tipos, que se acumulam pela praia durante  e depois que a população deixa a areia e o mar...A Praia Grande também é conhecida por ser povoada por aposentados que defendem a limpeza das calçadas feitas por mangueira, deixam a frente de suas casas brilhando, mas jogam seus restos de mato, poda e lixo no terreno baldio mais próximo.

E eu vivo aqui! Remando contra uma maré incansável, alternando entre  privilégio de ter uma praia, tantas vezes vazia e só minha e a revolta com o descaso e todo o lixo que a população local e turística resolve descartar por aqui...

Levo meus filhos a escola todos os dias de bicicleta e é inevitável que eu faça o caminho de volta passeando pela orla. E o que deveria ser um passeio de agradecimento a Iemanjá e um momento de paz no meu coração, normalmente se transforma num momento de desespero, tristeza e revolta...

Na semana passada, estava com meu celular e pude registrar algumas das situações que me fazem rebelar...Fiz algumas fotos (bastante toscas, já que tosco também é meu celular), mas através dessas fotografias posso relatar o que acontece por aqui, inclusive, quando não é temporada. O que me faz absolver os turistas, tão culpados, apenas em férias e feriados e constatar que o problema também é gerado pelo cidadão que paga impostos e reside aqui, mas que nem assim tem educação e respeito pelo lugar em que vive e pela praia que parece ususfruir de maneira tão vil e irresponsável.

E com todas essas constatações, algumas perguntas atormentam minha cabeça sem que eu chegue a alguma resposta.

O que leva uma pessoa a deixar esse rastro de sujeira por onde passa, sem se importar?
O que leva uma pessoa a achar que praia é um lugar onde se deve estender o consumo, seja ele qual for?

O que leva uma pessoa a não se divertir sem ter do lado o franguinho e a farofa?
O que leva uma mãe a trocar seu filho e largar na praia a fralda suja?

O que explica o fato de fumantes abarrotarem as praias como se elas fossem o cinzeiro mais acolhedor do planeta?
O que faz um envelope de tempero e um frasco de desodorante depositados na areia?

O que faz as pessoas não só consumirem tudo o que tiver ao seu alcance, mas principalmente espalharem os resíduos de seu consumo por todo o planeta?
O que faz o ser-humano ser tão cego, egoísta e despreocupado?
O que faz com que o ser-humano só se importe com o que está debaixo do seu nariz, esquecendo de todo o resto que ele não vê, não conhece e não se interessa em descobrir?

No dia das fotos...flagrei uma cena inesquecivelmente triste, que infelizmente o celular registrou, mas não revela com os detalhes que merecem essa explicação. Apesar da cidade ser urbanizada e ter perdido todo o perfil de uma bonita praia preservada, apesar de haverem poucos peixes, apesar de não se encontrar tartarugas por aqui...as gaivotas ainda são presenças permanentes e considero que isto seja um milagre!

Um milagre que o plástico consegue transformar em pecado...A cena que vi foi a de duas gaivotas lutando por um pedaço de plástico, numa disputa em que, definitivamente, eu não entendo qual o prêmio do vencedor. Falamos tanto do lixo plástico do Pacífico Sul e penso que em breve o Atlântico também poderá oferecer esse presente...

Culpa nossa...culpa de todo mundo que têm preguiça e não têm educação. Culpa daqueles que cuidam de suas casas e enchem de merda o resto do mundo. Culpa de quem se cala, culpa de quem não pensa...culpa de todos nós...

E eu pago por isso, meus filhos e outros filhos e netos também...Mas o preço mais alto quem paga são os animais, que não vivem para consumir, que não optaram por essa vida, mas que estão sentenciados a viver de nossos restos e da nossa solidariedade ou ingratidão. E ísso que eu não aguento mais.

No dia em que fiz as fotos, fui juntando o lixo que as gaivotas disputavam e colocando tudo nas lixeiras, logo ali do lado no calçadão, numa tenativa de faze-las párar de comer aquilo, ignorando o fato de que mais 26 km também precisariam deste meu trabalho...Recolhi o que pude...o que estava próximo de mim e vi quando um homem me fotografou...elogiou o que eu estava fazendo, criticou a conduta alheia, ouviu meu desabafo e saiu...lançando a bituca de cigarro que fumava no meio do calçadão...

E eu me sinto assim, sozinha, num mundo que não combina comigo, dando murros em ponta de faca...Mas água mole pedra dura...tanto bate até que fura. Eu não vou desistir...e vou sim, recolher o saco plástico que você deixou, bem na sua frente...para que todo mundo saiba: que eu ainda me importo: com as praias, com os animais...e com todo o restante do planeta que não pode escrever contando a sua indignação!


P.S.: Vale lembrar que durante a temporada trabalhadores da prefeitura atuam na limpeza da praia dia e noite, mas quando as férias se acabam a prefeitura não têm o mesmo empenho. Apenas entre os dias 24 e 27 de dezembro deste ano foram recolhidos da orla e vias públicas 392 toneladas de lixo. A cidade não tem aterro sanitário e o lixão foi desativado. Todo o lixo recolhido aqui vai para Mauá. A Prefeitura já chegou a utilizar área de mangue para depositar o lixo. Em 2001 os resíduos da dragagem foram depositados na baia do Forte Itaipú. Bem-vindos a Praia Grande, onde o show do verão é você!

10 comentários:

  1. Oi Mariana,

    Tenho um apto de veraneio na Enseada no Guarujá, faz 1 ano que compramos e passamos a virada lá, no dia 01 saímos pra ir a praia e ficamos o dia num quiosque e chovia muuuito, quando voltamos ruas alagas e muito, muito lixo boiando, mas não basta isso acontecer pro povo se conscientizar. Meu cunhado diz que deveria ter um pedágio absurdo para acessar as praias, assim diminuíamos o nº de farofeiros que não pagam impostos na cidade e destroem o que pode.
    Lamentável essa situação, no Litoral norte sempre distribuiam sacolinhas com propaganda para colocarmos o lixo e na areia da praia tinha vários locais para depositarmos os lixos, hoje não vejo mais isso, era uma iniciativa boa que preservava bastante.

    Devemos fazer a nossa parte e tentar conscientizar o máximo de pessoas para termos um mundo melhor.

    bjs

    Mariana

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  2. Oi Mari, é uma tristeza mesmo ver essa falta de conscientização das pessoas
    Eu sou de Santos, eu tb vejo esse cenário lamentável na praia.
    Aqui no Japão quase não se ve lixeira nas ruas e mesmo assim as calçadas permanecem limpas!!
    Vc está certa de fazer a sua parte
    bjokas

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  3. Deve ser uma confusão de gente nessa praia!!! E muita gente trás muito lixo... lamentavelmente! Incrível é que ninguém se gosta de sentar em cima do lixo, mas gostam de o deixar espalhado pela areia antes de ir embora.

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  4. Mari - concordo que os turistas sejam muito culpados, mas o que mais me entristece é ver os moradores sem a menor gratidão a praia que lhes serve de quintal. Acho também que o preço alto do pedágio, poderia diminuir a quantidade de pessoas e por consequência o número de toneladas de lixo espalhadas pela cidade, mas, sinceramente, acho que educação e consciência (principalmente ambiental) não se refletem na conta bancária. A Praia Grande é o paraíso da construção civil, liderada pelo prefeito Mourão, dono de uma construtora. Prédios não páram de subir e pessoas que possuem dinheiro para compra-los também são as mesmas que depositam suas bitucas na areia e culpam a prefeitura pelo alto valor do IPTU. Infelizmente pobres e ricos são além de alienados, agentes nocivos do meio ambiente...
    P.S.: Adorei vê-la pelo Evolução tb. beijos!

    Dea - vc é mesmo conhecedora de causa como eu...Ainda me surpreendo com países como o Japão, onde as ruas são limpissimas e as pessoas civilizadas (embora lá aconteça outras barabridades com os animais, nesse quesito, de longe eles são superiores)E o que faz com que essa diferença seja tão gritante? Não sei te responder!Faço minha parte por aqui e crio futuros agentes ambientais, que já se indignam quando se deparam com o lixo nas ruas...beijos e obrigada por comentar!

    Especialmente Gaspas - é muito triste...até porque já usufrui muito essa praia e sei o quanto ela pode ser maravilhosa quando está limpa...Incontáveis vezes assisti ao nascer e por do sol...e tive apenas a sensação de paz e gratidão no meu coração...Quando não é temporada a praia é minha e nela posso ser feliz! E eu só desejo isso...

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  5. realmente eh revoltante o que certas pessoas tem a coragem de fazer...
    fico indignada...bjkixxxxxxxxxxxx
    http://tatto-patinhas.blogspot.com/

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  6. Mari, tenho casa em São Vicente e sinto o mesmo, sabe? As pessoas são muito mal educadas! E depois do Revellion então? Dá nojo ir pra praia.
    Bjs e parabéns pelo post!

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  7. "Culpa nossa...culpa de todo mundo que têm preguiça e não têm educação. Culpa daqueles que cuidam de suas casas e enchem de merda o resto do mundo. Culpa de quem se cala, culpa de quem não pensa...culpa de todos nós..."

    Se eu precisasse dizer algo depois do teu texto seria o que está entre aspas. Mas vc já disse isso tb! Entendo prfeitamente o que vc diz, Mari e, poderia dizer que a resposta para todos os teus questionamentos do texto é a falta de educação das pesoas, mas infelizmente não é só isso, pois falta de educação se resolve educando. Sinto que o problema é infinitamente maior. Não se trata simplesmente de falta de educação, mas de falta de consciência e aí não tem jeito, pois consciência não se ensina, tem-se; não se desenvolve, pratica-se; não se impõe, adquire-se por respeito. O que há entre nós hoje é um imenso jogo de empurra, um absurdo "não é minha obrigação", um inaceitável "é culpa da adm pública, do vizinho, do filho da dona fulana". A maioria está cega. Não percebe seus atos. Acham que comer carne não é assassinato, que usar produtos tstados em animais não é crueldade, lavar a calçada com água corrente não é insano, jogar lixo na rua não é ignorância, tratar o planeta como uma latrina não é um crime! Infelizmente gostaria de ser mais otimista, mas não consigo. Grito o quanto posso. Fico rouca todas as vezes. Mas em todas elas, sinto que minhas palavras e meus atos vão ao vento... Mas sozinha vc não está. Eu estou meio longe, mas com os mesmos propósitos. E conheço outras pessoas que tb estão nessa senda, ainda que perdida... bj...

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  8. Kamylla - revoltante, repugnante, triste...enfim...coisas do ser-humano!

    Thata - sempre que passo por SV, especificamente em Itararé, acho que ali é um dos lugares mais lindos que já vi. E apenas um motivo não o torna perfeito para mim: as pessoas. Vc sabe bem, tb, sabe bem do que estou falando...beijos!

    Jafa - Concordo em gênero, número e grau...construimos um mundo e nos perdemos dentro desse sistema...Estes dias ainda comentei no Twitter que até a adolescência eu achava que estava sozinha...e a interent só me fez mostrar que não estou, felizmente, ainda há nesse planeta um bando de gente boa que já escolheu de que lado vai ficar!E a distância só é boa, nesse caso, porque significa que há sementes plantadas por todo o país...e vivo mais feliz por saber que no mundo há pessoas como vc...beijos!

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  9. Oi.
    Fico muito triste com esse fato, pois todo ano, eu e minha familia vamos a praia grande, desde que meu irmão com seus 19 anos ainda neim era nascido. Nenhum ano deixamos de ir, e NENHUM ano deixamos de ver a falta de desrespeito da população que mora ai. Sempre levamos uma sacolinha na praia, deixamos na cadeira e jogamos todo o lixo na sacolinha, se não, BRONCA da mãe e da madrinha!
    Fico feliz em saber que encontrei uma pessoas que se incomode com tudo de ruim que acontece nesse mundo... PARABENS mesmo a voce, que pelo que li, sempre colabora com o meio ambiente!

    obs: Sempre fico na Vila guilermina, e voce onde mora ai?
    Se puder me responder mande por e-mail: marielabrogio@hotmail.com

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  10. Mahh - anotei seu e-mail...a gente conversa por lá...beijos! Ahhh e obrigada por ser uma turista consciente! É um alívio saber que pessoas como vc e sua família ainda existem na baixada santista!

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Ju e Thata

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