Por um fio...



Olá meninas.... Espero que tenham passado uma boa semana e desejo-lhes um fds de consciência. A maioria de vocês já sabe que sou fotógrafa. Também creio que a maioria já sabe que a maior parte do meu trabalho consiste em fotografar o nu. O que vocês não sabem é que faço um trabalho de registro fotográfico para uma importante ONG internacional e que esse trabalho tem me levado a diversos hospitais onde muito tenho aprendido sobre a vida, sobre resistência, sobre solidariedade e sobre amor. São lições práticas, sem qualquer máscara religiosa ou moral. São puras, genuínas e reais. Devo escrever aqui no Sem Firulas sobre sustentabilidade, mas peço-lhes licença para hoje fugir um pouco ao tema, pois lancei ao horizonte minhas impressões sobre o meu trabalho desta semana e estou muito sem inspiração para todo o resto. Gostaria de compartilhar, além dos que costumam olhar para o horizonte, também com vocês. De qualquer forma, impende salientar que sustentabilidade é conceito amplo e diz respeito a qualidade de vida, a proteção, a amor ao próximo. Será que o meu post foge tanto assim ao tema como me justifico?

Está tudo por um fio. Hoje choro por mim. Por todas as oportunidades que deixei passar; por todos os momentos de intensa alegria que permiti escapar; por todas as lágrimas que consenti me rolassem a face.

Hoje está tudo por um fio.

Lamento por todos os lugares que deixei de ir por pura falta de coragem; por todas as decisões que não tomei por claro comodismo; por todas as conquistas que não tive por não me julgar capaz; por me esquecer do brilho que já tive nos olhos e da força que já tive nos braços.

Entristeço-me por todos os amores que não vivi; por todos os momentos que desperdicei; por todas as vezes que não dormi de conchinha; por todos os personagens que criei na busca de uma utopia que jamais alcancei e que me impediram de ser simplesmente feliz.

Hoje está tudo por um fio.

Choro pela falta de latim; pelo excesso de orgulho; pela pouca paciência que desde sempre me acompanhou; pela lucidez que tanto persegui; por minhas pernas fracas – incapazes de correr. Por minha origem tão distante; por meu futuro tão incerto e que tanto me amedronta.

Choro sem motivo; por futilidade; por loucura.

Choro por genuína tristeza – companheira robusta há vários anos que se revela, de tempos em tempos, demasiadamente poderosa e desmorona em água e desesperança.

Hoje está tudo por um fio.

Castelos que imaginei construir eram todos de areia. Amizades que imaginei fazer eram todas de papel – e veio a chuva – e as desfez.

Relações que jurei ser para sempre ficaram todas numa história que não consta em livros e que tampouco quero escrever.

Todo o imenso patrimônio de obrigações que juntei dia após dia, desilusão após desilusão, sem sequer ter a consciência que o círculo não se finda jamais.

À melancolia que há muito me acompanha hoje chamam de loucura.

“Você está ficando louca!” Foi a frase que mais reiteradamente ouvi nos últimos tempos. Estranhamente sempre me pareceu apenas tristeza minha e distância dos interlocutores. Os anos se passaram e a poeira do tempo cumpriu o seu papel.

Há dias os meus movimentos já não ajudam. A enfermeira entrou para os exercícios diários que nunca me foram problema, ao contrário, rendiam-me momentos prazerosos com aquela jovem ainda tão cheia de energia, ainda repleta de esperança.

Não conseguia me dedicar muito. Doíam-me as juntas. Não tinha forças. Ela então me perguntou:

- Por que a senhora não está me ajudando hoje?
- Porque estou sem forças!
- A senhora está se sentindo mal?
- Não minha filha. Eu só não consegui alcançar o café da manhã.

Apontei a mesa lateral com o prato de mingau ali deixado pela manhã, acompanhado de seis copos de água mineral fechados. Eu os deveria beber ao longo do dia. Penalizada, a enfermeira perguntou:

- Eu posso lhe dar o mingau?

Fiz sinal que sim e ela começou – colher a colher. Transtornada, ao me ver chorando em silêncio, ela me acompanhou; mas ainda tinha curiosidade.

- Por que a senhora está chorando?
- Ah, minha filha... é que hoje está tudo por um fio. Eu já não estou mais agüentando tanta tristeza no meu coração!


Este post foi escrito após a experiência de dois dias de trabalho num hospital geriátrico no Rio de Janeiro. Implacável. Aterradora. Assustadoramente verdadeira. O abandono social é uma realidade muito presente no cotidiano das sociedades modernas. O abandono social de idosos é tanto maior e tanto mais recorrente. Essa história é real.

Silêncio.


5 comentários:

  1. Lindo texto.
    Triste, mas lindo.
    Parabéns pela sua força e dedicação! Todos deveriam doar um pouco do seu tempo para diminuir a angústia dessas pessoas.

    Bjs

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  2. Pra variar, excelente texto Jana!
    Sabia pouco sobre este seu trabalho, e agora posso dizer o quanto lhe admiro ainda mais. Não tenho esta coragem, confesso...

    Sinceramente quando vejo alguma criança abandonada, não me dói tanto quanto ver um idoso sozinho. Isso faz meu coração ficar muito apertado!

    Parabéns!
    Bjs
    Faby

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  3. Lindo mesmo, Jana!

    E pensar que tantas vezes esses sentimentos também nos alcançam, mesmo que ainda estejamos tão distante dessa realidade, onde se paga um preço tão alto por ter envelhecido.

    Concordo plenamente que sustentabilidade é um conjunto de ações que beneficiam todo o planeta, o que inclui o ser-humano, por mais que esse pareça viver paralelamente ao resto do mundo.

    Humanidade, respeito e dignidade deveriam ser um direito de e para todos.

    Jana, sinceramente, ainda espero ler um livro escrito por você!

    P.S.: Você recebeu o e-mail que eu te enviei?

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  4. ESPECIALMENTE GASPAS: Obrigada, querida! Seja sempre benvinda... bjn...

    THATA: Obrigada pelos elogios, THATA! bjn...

    BY FABY: Pois é Faby. Vc já havia perguntado sobre esse trabalho antes, mas não posso falar muito sobre ele por razões contratuais, mas basicamente se consiste no que expliquei no post. Muito obrigada pelo carinho de sempre. Particularmente sinto o mesmo que vc. Não sei exatamente por qual razão, mas o abandono de idosos me deixa mais chocada do que o de crianças. Difícil mensurar violências tão grandes, mas parece-me grave demais relegar ao abandono quem já está no fim da vida! É das coisas que me deixa mais triste, sem a menor sombra de dúvida! bjn...

    MARIANA: Ô amore! Muito obrigada! Se um dia eu escrever, o primeiro exemplar será seu! Como somos covardes não? Os fortes procuram os iguais para se aliar e para guerrear. Nós, os evoluidíssimos seres humanos, imagens de pura divindade, torturamos animais, abandonamos velhos, violentamos crianças, espancamos mulheres! Somos realmente a imagem da bondade! bjn...

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Ju e Thata

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