Folia e eu...


Sim! Esse título é um plágio da história Marley e eu; e nesse post vou me dedicar a contar para vocês a minha história junto com a Folia, a primeira cachorra que eu tive na vida, certamente o ser-vivo que mais me ensinou a querer um mundo mais justo e humano também para os animais.

Para começar esta história devo falar que fui uma criança criada em apartamento, que implorava em cada data comemorativa para ganhar um cachorrinho e mais ainda para ficar com alguns dos tantos bichos que encontrávamos pela rua.

Quando cheguei a adolescência e já achava que o sonho de povoar minha casa com animais teria que esperar até eu sair de casa, meu padastro enlouqueceu e resolveu comprar a Folia, mas ninguém nos falou nada, a Fuli chegou no dia 17 de maio de 1993 sem que estivéssemos esperando.

Até porque se eu soubesse da novidade, naquela época mesmo, trataria de convencer a família a adotar um bichinho de rua, como os tantos que achávamos, minha irmã e eu, desabrigados em plena noite de reivellon e que nos faziam perder o interesse pela festa ao mesmo tempo em que nos sentíamos completamente incapacitadas para mudar o mundo, conseguindo apenas roubar comida ou leite de casa para alimentar os bichanos.

Mas como naquela época, nem eu, nem minha irmã, apitávamos nada em nossa casa e o sonho do meu padastro era ter novamente uma perdigueiro (raça da Fuli) já que a dele, tão amada em sua infância, havia desaparecido. Eis que num dia de chuva e muito frio conhecemos o ser-vivo que a partir de então, passaria a ser nossa irmã mais nova: Folia, sim, esse era seu nome!

A Folia reforça ainda mais a minha convicção de que criadores são irresponsáveis e sujeitam os animais a condições de vida deploráveis para justificar sua renda. A Fuli foi comprada em uma fazenda em Franca, foi transportada de lá a São Paulo dentro do porta mala de um carro, chegou infestada de pulgas e tinha bernes por todo corpo.
Lembro-me de chegar da escola e vê-la, imensa, no alto de seus 4 meses, com uma roupinha vermelha e com muito sono e não acreditar que aquilo estava acontecendo. Certamente foi uma das melhores surpresas da minha vida...

A Folia, Fuli, Fuca, Fucão, Fulili, Gorda sempre foi uma cachorra carinhosíssima, companheira, animada e absurdamente inteligente. Diria inclusive, que muito mais inteligente que boa parte das pessoas que conheci nessa vida.

Ela foi crescendo, destruindo um pouco a casa a cada dia, entre fio do telefone, camas e colchões, vasos de violeta, sofás e móveis. Dormia na cama e comia praticamente tudo o que comíamos. A verdade é que foi criada como um ser-humano e não como a cachorra farejadora que era, isso ficava visível quando saíamos para passear e os outros cachorros latiam fervorasamente, e ela, os ignorava por completo, jamais arranjava encrenca com eles, os olhava inclusive, com certo ar de superioridade, como quem dizia: “Limitem-se a sua insignificância, eu não sou da laia de vocês!” Era assim com todos.

Só houve uma exceção: o Sarney, um filhote vira-latinha que encontramos na rua e acolhemos por um tempo. Ela o adorava e quando saíamos de casa e não trancávamos as portas dos quartos, ela abria a maçaneta com sua pata e se refestelava com ele em nossas camas. Brincaram muito enquanto ele esteve conosco.

A Folia abria portas e sofás-camas com certa maestria. Trazia sua vasilha de comida ou água até a sala quando queria mais. Roubava comida de cima da pia ou mesa, se escondia por horas embaixo da cama para não tomar banho. Em passeios amava uma macumbinha de esquina e urinava em cada árvore, como fazem os machos.

Aliás a palavra passeio não podia ser pronunciada nunca, se de fato não a fossemos levar passear, porque quando ela ouvia “passear” pegava sua coleira trazia na nossa mão e não parava de pular até nos vencer pelo cansaço e receber seu prêmio. Com o tempo, além da palavra passear a palavra “vamos” também teve que ser abolida, porque ela repetia o ritual, mesmo que houvessemos acabado de voltar da rua.

Se ela estivesse próxima de nós, cochilando ou deitada e percebia que falávamos dela, as vezes, sem mencionar seu nome, começava a balançar o rabo, entusiamada. Trazia seus ossinhos para cada pessoa que adentrava a casa num sinal de boas-vindas e todos amavam a Folia, até as pessoas que não ligavam muito para cachorros, dela gostavam.

Como a grande maioria dos animais a Folia tinha essa capacidade incrível de perceber quando estávamos desanimados ou tristes e nesses dias não desgrudava da gente nem por um minuto. E quando eu passava minhas madrugadas na internet era ela minha companheira fiel, ficava no quartinho do computador, deitada ao meu lado, atenta a qualquer movimento, esperando que eu voltasse da cozinha com guloseimas.

Quando eu espalhava livros e cadernos em cima da cama para fazer trabalhos de escola, ela me olhava com uma cara do tipo “tire esse lixo daí que eu quero deitar” e como eu não obedecia sua ordem, ela subia por cima do material mesmo e ainda ficava girando, pisoteando tudo até encontrar uma posição confortável. Folgada? Imagina!A verdade é que faltava a ela uma noção melhor de espaço, acredito que pensava que era pequena, tanto que dominava o sofá da sala até expulsar as outras pessoas , inclusive as visitas.

Acho que o ápice de sua felicidade acontecia aos finais de semana, quando viajava com minha mãe e meu padastro para o sítio da família dele. E ficava livre, correndo pelos campos, banhando-se na água dos cavalos e correndo atrás de galinhas, sem nunca as atacar e devo confessar: ela adorava uma merdinha...era só encontrar uma pelo caminho que deitava e rolava, literalmente...

De volta a Sampa, o negócio dela era realmente dormir comigo espremida na minha cama de solteiro...bom espremida eu, porque ela arranjava o lugar dela e problema meu, se eu tivesse que deitar em S para conseguir espaço na minha própria cama e ai de mim se ficasse me mexendo muito, que ela reclamava. Também roncava e sonhava muito...e ainda assim eu adorava dormir com ela...

Em 1998 meu padastro faleceu...e ela passou os quinze dias pós-morte esperando por ele todas as noites e madrugadas. Ela puxava a almofada da mesinha do telefone e deitava sobre ela no corredor da porta de entada e lá dormia, longe de nós na esperança de que ele fosse voltar.

Ele não voltou...os fins-de-semana no sítio se findaram, ela começou a engoradar e esse misto de saudade e tristeza resultou no início de uma série de doenças que ela começou a desenvolver. Algumas mais suaves, outras que vários médicos nem chegaram a descobrir o que era. Ainda assim ela continuava a ser a mesma menina sem-vergonha e querida de sempre. Carinhosa e companheira, folgada e comilona.

O tempo, inevitavelmente, continuou a passar, nós a envelhecer, mas ela ainda não dispensava as saídas diárias na rua, era uma celebridade no meu prédio, foi uma celebridade por onde passou...

Aos vinte e um anos sai de casa, mas ainda assim a visitava todos os dias. Cada vez mais velhinha, cada vez mais doente, vencendo cada doença uma a uma. Engordou muito, chegou a tomar corticóides por anos, o olhar não tinha mais o mesmo brilho, mas a personalidade se matinha inabalada.

Lembro-me de um dia quando ela já estava com uns 11 anos e eu não morava mais em São Paulo, mas fui para lá visitar minha família...e assim que falei “Vamos passear” ela não se animou tão euforicamente como fez durante a maior parte de sua vida, ainda assim se levantou, pegou a coleira e trouxe para mim.

Saímos então, bem devagarzinho, eu e ela, e eu pensei “Aonde está aquela cachorra que me levava para passear, que conduzia a mim, e não o contrário, que buscava por macumbas e comia mato, que queria ver o mundo inteiro em meia hora??” Não existia mais. Ao meu lado andava uma cachorra idosa, obesa, em passos curtos e lentos que eu acompanhava com uma dor indescritível no peito, já esperando pelo fim certo e breve e lamentando pela vida curta dos animas enquanto tantos monstros vetidos em corpos humanos demoram mais de oito décadas para morrer...

Minha irmã decidiu a trazer pra cá, numa época em que ela ainda tinha apenas mais 4 cachorros e eu contava com o número de 7. A Folia passou o final de seus dias na praia, já não ligava muito para passear, nem muito menos para os outros cachorros, passava a maior parte do tempo dormindo, mas não parou de balançar o rabo, sempre que nos via.

Eu deitava perto dela, conversava baixinho, beijava o fuço repetidas vezes...chorava e ia embora. No reveillon de 2004 para 2005, quando eu já estava grávida da minha primeira filha, passamos a virada aqui em casa, eu com a Fuli e minha barriga de 6 meses dentro de casa e meu marido no quintal com os outros filhos, todos detestam os fogos. E eu fiquei a acalmando, logo ela percebeu que não havia perigo. Nós estávamo com ela e assim foi até o final do ano.

Ela não resistiu a mais um ano novo. Numa noite, minha irmã me ligou chorando e nem precisou terminar de dar a notícia, saímos de casa correndo com minha filha nenen no colo para dar o último adeus. Me despedi! Chorei por dias e até hoje ela faz uma falta absurda, demorei muito para me acostumar que podia colocar a comida em cima da mesa, que não haveria ninguém para roubar, que podia pronunciar as palavras passear e vamos, sem ter que sair na rua, interrompendo o que estivesse fazendo...

Enfim...a Fuli foi uma benção na minha vida, mesmo sem eu ter concordado com os meios que a fizeram chegar até nós. Lamento que sua vida tenha sido ainda mais breve que a média de vida dos outros cachorros, já que ela nem chegou a completar 13 anos...Lamento não ter podido fazer mais, lamento que ela tenha sofrido, lamento por que não esteja mais aqui...

Ficaram saudades e agradecimentos...



Fuli, esteja aonde estiver, saiba que toda vez que eu me lembrar de você os meus olhos vão lacrimejar ao mesmo tempo que a sensação de um amor incondicional e absoluto vai me dominar. Te amarei sempre!

14 comentários:

  1. Estou em lagrimas. e chorei horrores quando li e quando vi o filme Marley e eu, bom desde pequenina eu seeempre quis um cachorro, mas morei em apartamento por muito tempo e mal dava para nos 4, mas a 4 anos atras mudamos para nossa casa tão esperada e ela nem tava pronta, faltavam várias coisas ainda, mas nem eu nem minha irmã conseguiamos esperar nem um minuto para termos o sonhado cachrro, escolhemos uma labrador que foi nominada de Phoebe, nossa ela nasceu um pouco antes do nos mudarmos e pegamos ela com um pouco mais de 1 mes, na época era copa do mundo e tudo dela era verde e amarelo. Uns 8 meses depois estavamos na praia passeando e tinhamos levado ela pela primeira vez lá, e eu vi um cachoriinha pequenino cheio de sarna no meio da estrada, eu simplismente parei o transito todo para pega-la que a principio cuidariamos dela e quando estivesse boa dariamos para alguem que quizesse ate pq ainda estavamos aprendendo a cuidar da nossa bagunceira, mas logo no primeiro dia ela já rosnava para Phoebe que tinha o triplo do tamanha dela, espulsava a gente da cadeira de praia. quando viemos para cidade um dia ela fugiu e ficamos o dia todo procurando ela e eu chorando... depois desses dias a adotamos, e não há nada menlhor que chegar em casa depois de um dia estressante e ser recepcionada pelas melhores companheiras do mundo.
    amo.
    bj Milena

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  2. Chorei com esse post :(
    Tenho um bebê de 10 anos e imagino a sua dor... só de pensar em perde-lo fico louca...
    Folia era linda e teve sorte de ter sido muito amada pelos pais humanos. Ela tá bem onde quer q esteja, no céu dos cachorros.
    Bjs e lágrimas.

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  3. Puxa, que história triste!

    Também tive cães que senti o amor que vc descreveu...entendo perfeitamente a sua saudade.

    Bj no seu coração.

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  4. Tô aqui chorando desesperada também... o Bus (meu linguicinha) também dorme comigo e eu não consigo imaginar a minha vida sem ele. Ele tem 4 anos e pouco e espero que ele fique no mínimo mais uns 10 perto de mim. Beijo

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  5. A primeira cachorrinha que eu tive faleceu ontem, não tive a chance de dar um último adeus já que moro em outra cidade, seu post me fez sentir ainda mais o quanto eu a amava, e eu sei que agora ela está num lugar melhor, e deixou de sofrer..

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  6. Gostaria de falar mais, Mari... Não posso. De qq sorte, só quem tem a oportunidade de conviver com um animal poderá saber do que vc fala. Se eu tivesse fé, rezaria pelos que pensam que só existe amor entre os humanos... bjn...

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  7. Estou muito emocionada em ler seu depoimento.
    Sempre tive cachorros, e sempre os amei muito. Sofri com a perda.
    Hoje sou casada e tenha um nenem em forma canina, a Phoebe (igual a Milena :)).
    Sempre pedi um cachorro ao meu marido, mas ele sempre relutou pois moramos em apto.
    Ele acabou me dando ela, uma linda peludinha de raças misturadas.
    Me identifiquei muito com seu relato, pois ela tem a personalidade igual a da Folia, mas em tamanho menor.
    O que mais me tocou, é que justamente hoje, meu avô se estivesse vivo faria aniversário. E ganhei a Phoebe no mesmo dia que ele faleceu, apenas algumas horas antes.
    Meu marido me contou que resolver me dar pois justamente meu avô se encontrava doente e ele queria me alegrar. Conseguiu.
    Hoje em dia não conseguimos nos imaginar sem nossa peludinha. Inclusive meu marido, que sempre relutou. Ela dorme no nosso meio, com a cabeça no travesseiro e coberta.
    Só quem tem ou teve o amor incondicional de um cão, sabe o quanto isso é importante.
    E saiba que a Folia está lá no céu olhando por você.

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  8. Meninas...me senti abraçada por vocês com os comentários. E fiquei feliz em saber que cada uma de vcs tem uma Folias em sua vida e dividiu aqui um pouquinho da sua história!!!Eu agradeço!

    Uma observação fica por conta do antipenúltimo parágrafo, onde eu falo sobre os meus filhos. Lendo a postagem para a minha filha, hj com 5 anos, ela disse: "Mâe, acho melhor vc colocar que são os cachorros as pessoas vão achar que vc tem outros filhos e não q eles são os cachorros". Seguindo o conselho dela...aqui está uma explicação...embora eu ache que todas tenham entendido o recado...rs

    Beijos para todas!!!

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  9. Me emocionei muito com sua história e da Folia.

    Bjo

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  10. Guadalupe e LaLoka...fico muito feliz que tenha conseguido emcionar tb a vcs com a minha história.

    A obs: continua por conta da minha filha, que ama histórias, e me pede todo dia para ler eta postagem...

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  11. Escrevo entre lágrimas. É a primeira vez que leio teu blog, e me deparo com a história de Folia. Sempre morei em casa, e sempre tive gato, cachorro e papagaio. Em cada perda que eu tinha, um pedaço de mim ia junto, mas que nem tu, a certeza de que todos os momentos com os filhotes foram aproveitados ao máximos.
    Onde a Folia estiver,e la vai estar feliz por tudo que viveu..

    Beijão!

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  12. Roberta, obrigada pelo carinho, sempre bom ser acolhida assim. Mas o blog não é meu e sim da Thata, que organizou tudo bonitinho por aqui e é a responsável por ele ser esse sucesso, eu só estou dando minhas contribuições semanais com a permissão dela, que gentilmente me cedeu esse espaço...
    beijos!

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  13. Andei sumida meninas mas vim aqui me atualizar... claro!!!!
    Muito emocionate Má!!!! Se cada ser humano tivesse pelo menos 10% de sensibilidade e humanidade o mundo não estaria assim...
    Bj grande!!!

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Ju e Thata

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